Meia noite no Maracanã

“Meia noite em Paris” é um ótimo filme. Nele, um roteirista americano que deseja escrever um romance está na Cidade Luz com a noiva rica passando férias. Numa noite, após uma pomposa degustação de vinhos, o protagonista sai um tanto bêbado pelas ruas da capital francesa e acaba pegando carona em um carro velho que o leva ao passado. Anos 20. Época em que Paris fervia artisticamente. Nesse “De volta para o futuro” de Woody Allen, ou seja, muito mais fino do que o de Zemeckis, o frustrado escritor conhece ícones da literatura, fotografia, cinema, pintura e música. Hemingway, Fitzgerald, Man Ray, Buñuel, Picasso, Dali, Porter… Todos fascinantes, cada qual em sua área.

Pois bem, o filme é sensacional (mais sobre ele, aqui). Mas não era sobre ele em si que eu queria escrever nessa crônica… Ou post, certo? Encarando isso como Zemeckis e não como Allen. A questão é: e se transportássemos essa premissa da película para o futebol? Imaginem Woody Allen trocando Paris pelo Maracanã…

Quarta-feira à noite sem jogos do seu time no Campeonato Brasileiro. Apenas no Rio de Janeiro. Ou seja, seu time atuou fora. Perdeu. Você estava no bar, com amigos, com a namorada, bebendo bastante. Obviamente você fica muito p@#$ da vida. Depois daqueles 10 minutos de consternação na mesa, com alguém puxando assuntos off futebol e outros ainda discutindo por que diabos o técnico não escalou fulano ou amaldiçoando a família do árbitro que não marcou pênalti naquele empurrão na grande área, você emenda:

– Vou ali comprar cigarro. Já volto.

E você levanta, de cabeça baixa, não vendo muito sentido nesse sentimento. Nessa dor por uma derrota não sua exatamente. Mas muito sua. Passa por um ou outro torcedor rival, que tira sarro de seus respectivos amigos em outras mesas. Já era tarde, quase meia noite, você caminha um bocado para longe de onde estava, pois, como era tarde, o único lugar vendendo cigarro era a loja de conveniências dentro do posto a umas duas quadras.

Ao dar início a essa epopeia de andar tudo isso, você lembra que não fuma. Não compra maços. No máximo um ou outro de vez em quando para pitar no estádio ou depois de beber bastante cerveja e que duram semanas ou meses até. Nesse instante toca uma buzina. Um fusca daqueles antiguíssimos, mas muito bem cuidado encosta na calçada. De dentro, uma voz familiar, mas não reconhecida, grita:

– Filho, entra aí!

Você bebeu, lembra? Então, sabe se lá por que, entra no carro. Um fusca modelo standard, o primeiro trazido ao Brasil. Em 1950. Lá você encontra um senhor que, em tom sereno, mas animador e acolhedor, diz segurando aquele volante gigante.

– Vamos para o Maracanã. Tem um jogão hoje e estou confiante que vamos ganhar.

Ele é uma mistura de todos coroas que você já conheceu ao longo da vida. Um pouco de cada. A sabedoria do seu avô, a malandragem daquele seu tio, a cordialidade do barbeiro, o sorriso do padeiro, a segurança do seu pai. Toda aquela gente que você conversou uma vez ou outra sobre futebol ou que discutia bastante sobre o esporte bretão. Num piscar de olhos, você está parando o carro ali naquele rio – valão – que separa o Maracanã da Uerj. E um barulho de bumbos, torcida entoando músicas do seu time, alguém gritando: “Cerveja, cerveja!”.  Você não acredita naquilo tudo. Passa a mão nos olhos, e pensa:

– Cerveja, não. Chega. Bebi demais…

Quando abre os olhos novamente, se vê segurando um copo de coca-cola – acompanhado de um cachorro-quente-frio só de salsicha e pão – e subindo o túnel que dá acesso à arquibancada. Aquela luz dos refletores se aproximando. Imagem que você se recorda desde a primeira que vez entrou ali à noite. Em 1984. Em 1950. Ano passado. Não importa. O estádio não está cheio, mas têm 20, 30 mil pessoas. Numa conta muito por alto, isso nunca te importou muito. O que contava era estar ali. Naquele terceiro “buraco” depois da tribuna de imprensa. E você estava de fato ali. Como pode? Você olha para o campo e vê que está prestes a começar um jogo entre seu time e o adversário que o acabara de derrotar. O senhor, ali ao seu lado, afirma:

– O time deles é bom. Mas se a gente jogar com raça, dá pra ganhar.

Nesse momento você percebe que era um jogo que você fora assistir há uns 15 anos. Seu time venceu. Foi um partidaço! Você assiste a tudo de novo, como num flash. Revive aquele triunfo, que lhe proporcionou um sentimento completamente oposto ao do revés acompanhado por você naquela mesa de bar momentos antes.

O duelo termina. Você desce a rampa do Maracanã. Extasiado com a vitória. Gritando o nome do seu time a plenos pulmões. E ao fechar os olhos quando uma bandeira tremulada por um companheiro iria bater no seu rosto… Você se vê de repente no fusca que, logo, para, e te deixa próximo ao bar no qual você estava. O senhor, rindo a toa, fala:

– Eu falei que a gente ia ganhar. Quarta que vem a gente vai lá. Vamos tentar chegar antes pra ver a preliminar.

Você acena, dá meia volta e retorna à mesa. Dá um leve sorriso ao chegar. Seus amigos param por instante e te fintam. Sua namorada diz:

– Tá mais calmo, amor?! Senta aqui, senta… Até que você foi rápido, comprou o cigarro?

Seu amigo, menos carinhoso, dispara logo em seguida:

– Tá rindo do que, p@#$# Até o p!@# daquele garçom que esqueci o nome passou aqui e sacaneou. Maldito técnico de m!@#%. Derrota de m!@#%. Vamos beber!

Você senta. Tranquilo. Chama aquele p!@# do garçom que você também esqueceu o nome. Pede uma cerveja e pensa consigo mesmo antes de voltar ao papo:

– Eu amo a p@#$# do meu time. E amo futebol. Que saudade do Maracanã!

Ou seja, a ideia é sempre relembrar de vitórias épicas, ou jogos inesquecíveis, fascinantes, cada qual em seu tempo, no Maracanã. Não necessariamente os que você tenha presenciado. Mas aqueles que seu pai, tio, ou avô de um amigo o contaram. Pode ser até mesmo uma derrota, para lembrar que você já passou por esse sentimento e sobreviveu – relembrar as menos doloridas, que fique bem claro.  Reviver não só o jogo, mas toda aquela aura de ir ao estádio e ver seu time em ação. O sentimento. Amenizando a dor. Uma fantasia de morfina futebolística com o ex-maior do mundo como cenário. #ficaadica Allen.

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